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O controle remoto e o ‘início do fim’ da passividade do sujeito

Conexão, convergência, participação e interatividade. De onde veio tudo isso?

Letícia Jury


Conheci Lúcia Santaella pessoalmente em 2018, durante um congresso de mídias interativas na Universidade Federal de Goiás. Obviamente, que levei todos os meus livros para ela autografar (foto). Autora referência para pesquisadores da área da comunicação, é dela a frase de que o ‘abandono da inércia na recepção teve início com o controle remoto’.


Para Santaella, novas sementes começaram a brotar no campo das mídias com o surgimento de equipamentos e dispositivos que possibilitaram o aparecimento de uma cultura do que ela intitulou de ‘disponível e transitório’, como as fotocopiadoras, videocassetes e aparelhos para gravação de vídeo, walkman, walktalk, acompanhados de uma crescente indústria de videoclipes e videogames, vídeos sendo alugados por locadoras até culminar na TV a cabo.


A autora fala sobre ‘processos constitutivos de uma cultura das mídias’, ou seja, que naquele momento passamos todos a sermos arrancados ‘da inércia da recepção de mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar’. Para Santaella foram esses meios, citados acima, e os processos de recepção, que nos prepararam para a chegada dos meios digitais, para as mensagens segmentadas, diversificadas, hibridizadas, dos multimeios e multiplataformas.


Então chegamos aqui neste tempo de convergências, interatividade e participação. Temas amplos de estudos que perpassam por Levy, Thompson, Castells, dentre outros, e chega a Jenkins, nossa referência bibliográfica atual com suas famosas obras ‘Cultura da Convergência’ e ‘Cultura da Conexão’, literaturas obrigatórias nos cursos de Jornalismo.


Mas como entender este cenário, que não pode ser dissociado dos avanços históricos dos meios de comunicação e interações humanas? A primeira observação que todos os autores nos apresenta é que não se trata de apenas uma mudança de técnicas, em decorrências dos avanços tecnológicos, mas estão intrínsecos as transformações sociais e culturais. Observa-se então, as mudanças de comportamento do indivíduo com a mídia ao longo dos anos. Retomemos os exemplos citados por Santaella no início deste artigo. O fim da passividade teve início com o equipamentos simples, como um controle remoto!


Quando se explica o cenário de produção de conteúdo para multimeios, colaboração entre meios e profissionais e compartilhamento de informações, é necessário entender as três dimensões da comunicação, o que deve servir de parâmetro para todos os processos realizados por jornalistas e profissionais de mídia. O primeiro é a comunicação humana, a comunhão, por meio do corpo, gestos, falas e suas relações com objetos. Uma palma é uma forma de comunicação, assim como o silêncio, a música, o toque de um objeto. A comunicação humana sempre irá preceder qualquer forma, me perdoe a redundância, de comunicação.



A segunda dimensão é a comunicação por meio de veículos de massa, os livros, os jornais, as revistas, o rádio e a televisão. A terceira é a digital, a metatecnologia, é a ‘um para um’ - ‘um para muitos’ – e ‘muitos para muitos’. É o computador pessoal em rede, o celular, a portabilidade e a modalidade das conexões; a interação face a face agora mediada, as narrativas online, os debates, os games, as interações e práticas comunicativas, que caracterizam intercâmbios comunicacionais, que resultam em processos de convergência.


Tudo isto é possível por meio de uma internet, que também mudou suas características e seu perfil ao longo dos anos, saiu de uma experiência em uma faculdade norte-americana, e se tornou a responsável por expandir recursos, e possibilitar que consumidores pudessem escolher como e quando devem receber conteúdos. Ela possibilitou o surgimentos não de novas práticas (pois estas são inerentes do ser humano e está na primeira dimensão, que é a comunicação humana), mas de novas maneiras. Ela potencializou as práticas anteriormente existentes. É a responsável por diferentes níveis de interatividade e formas diversas de participação.


A internet como destaca Santaella, recodifica linguagens, mídias, cria suas próprias relações, imersões, velocidade, mecanismos de distribuição, dinâmicas sociais entre usuários. E tudo isto, é apenas uma ponta de um iceberg, que busca contextualizar os novos processos de comunicação em sua sociedade globalizada e interconectada.


Se o controle remoto, na década de 80, do século passado, iniciou o processo do fim da passividade; a velocidade da internet consolidou o empoderamento do sujeito participativo. No entanto, a discussão que deve se seguir nos próximos artigos sobre o tema, é como, esta participação e interatividade atua nas relações sociais? Há estudiosos e pesquisadores debruçados para entender tais fenômenos.


O próximo artigo será com este tema!

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