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  • Letícia Jury

Pós-vírus: uma nova era

Professora pós-doutora em Estudos Culturais analisa as possibilidades, desafios e os legados do pós-Coronavírus


Olira Rodrigues Mudanças urgem diante de um vírus com poder deletério! Talvez, demoraríamos anos, até décadas para reajustarmos o que precisamos fazer neste exato momento. Não há tempo para pensar, analisar, testar, reestruturar, remodelar. As implementações são cobradas neste instante, sem titubear, sem chance para não adesão. Fazemos parte de um experimento do laboratório chamado vida. Tudo no improviso está acontecendo e não há possibilidade de ensaio para ajustar os equívocos. Novas formas de gestão se impõem. A infraestrutura social pautada em antigos formatos não funciona mais, ou funciona de maneira precária, na maioria dos casos. Em muitos contextos, não há como preservar hábitos outrora utilizados socialmente. Um portal de novas possibilidades se abre, diante de uma realidade mundial posta. A partir de novas alternativas implementadas, a solidariedade é a palavra-chave daqui em diante. Pensar no outro próximo, no vizinho, nos moradores da mesma localidade, da mesma cidade, estado, país, torna-se um ato natural. Para nos preservarmos, é necessário que o outro próximo também esteja agindo com cuidado para, também, não nos contaminar. Um infectado é problema de todos. A irresponsabilidade de um reverbera em todos de uma mesma comunidade, pois o contágio é democrático e equânimo. Um sistema de mútuo apoio torna-se imperioso, tanto para não contaminar pessoas de grupos de risco, quanto para auxiliar pessoas que perderam suas rendas em trabalhos informais, em decorrência do isolamento social. Além de pequenas ações do governo e de algumas grandes empresas e indústrias para atenuar perdas salariais, em comoção, muitas pessoas atribuem doações em campanhas solidárias em plataformas online de arrecadação financeira. Há uma preocupação legítima econômica, para tanto é necessária uma reinvenção de métodos outrora utilizados, como vendas online, delivery, drive thru e teletrabalho. Uma vida produtiva em casa, para que haja condições de renda, com uma urgência de readaptação. Como agir diante da prerrogativa de que o Brasil não pode parar? Como operar essa nova lógica? Como garantir que não haverá mais desempregos? De maneira ainda tímida, empresas e indústrias iniciam a atribuição de valor à produtividade, independentemente da presença física. De repente, home office e coworking tornam-se prementes, com adesão em algumas organizações. Mas ainda está distante da eficácia para que muitos não sejam altamente prejudicados. Outra rubrica ideológica da matriz capitalista é necessária para não haver um massacre econômico, enquanto muitos vertem lucros obscenos nessa situação. A relação paradoxal de interrupção e continuidade do mercado gera polarizações entre a saúde e a economia. Gerir movimentos de equilíbrio analisados quase que diariamente - face ao cenário da pandemia que se alvoroça a todo o instante - para agir com expertise, análise crítica, planejamento e conhecimento de causa, possibilita a aproximação à assertividade, se não total, ao menos parcial. Por outro lado, em casos específicos, a educação segue se reinventando, professores reelaborando aulas em novos formatos em diferentes estratégias. Na maioria dos casos, não há liberdade de cátedra, em detrimento a uma imposição de readequação. Inovar é a pauta da educação, home office e homeschooling são as novas tendências educacionais. Mais responsabilidades, inclusive na administração de tempo e rotina de trabalho e estudo. Professores, a partir do acesso à internet e artefatos para as aulas remotas (celular, desktop, laptop, tablet), em plataformas como Moodle, Google Classroom, Hangouts Meet, Phet, YouTube, WhatsApp, Zoom, dentre outras, disseminam conhecimentos, viabilizados em vídeos, videoconferências, salas de aula online, fóruns, chats, ou meetings, para que a docência se recomponha em seu papel no processo de ensinar e aprender. Contudo, inúmeros estudantes provam o dissabor de não conseguirem conexão de qualidade em atividades instituídas por meio da virtualidade. Como tratar de casos em que alunos obtêm pacote de dados limitados e insuficientes de internet ou que utilizam apenas internet em espaços com acesso gratuito? Seria, assim, inclusão ou exclusão digital/social? Há de se considerar diversidades, heterogeneidades, particularidades, desigualdades, como realidades não estanques, cuja distância não somente física, mas de uma situação ideal, faz com que a educação apresente uma virtualidade não virtuosa. A passos largos, a educação se reestrutura com a tecnologia como mediação de disseminação de conteúdos. Assim, em tempo de afastamento físico, educação e comunicação tecnológica precisam caminhar de mãos dadas, em coexistência. É o momento de promover a democratização do conhecimento, criar sistemas online gratuitos e acesso aberto à produção acadêmica, pautados em uma escola democrática, participativa e ativa, com processos de aprendizagem cognitiva e emotiva. Somente a apropriação de uma educação mais social e humanizada fará com que a diversidade metodológica não gere desigualdade e mecanismo de segregação social. Em um tempo de um vírus, considerado vírus da desglobalização, novas ações de políticas públicas são requeridas, pois é o instante de maior conectividade. Chegou o momento cirúrgico de tratarmos a miopia social que nos assola e, ao contrário do que julgam alguns, o papel da educação é norteador na transformação social de um povo, por meio da construção de mudanças comportamentais e culturais. O ano de 2020 chega como arauto de uma nova racionalidade humana, aplicada a toda a população mundial. Entre o eufemismo de que a economia se reestruturará rapidamente e a hipérbole de que a pandemia é uma questão de histeria, fico com ambas as figuras de linguagem, a primeira como figura, a segunda como realidade.


Que inquietudes, pensamento crítico e senso de urgência, como vacina, surjam, num movimento de combate às desinformações que são disseminadas em grande escala, por meio de Fake News e Pós-verdades, em diálogos e discursos falacianos proliferados e repercutidos. Penso não ser possível resgatar o mundo como estava estruturado. Seria um mundo inexistente? Aceitar essa nova realidade, em meio ao caos como redescoberta e reinvenção, torna-se condição sine qua non para o fortalecimento da sociedade, inclusive, dos circuitos de afeto em que, atualmente, a não aproximação física redefine um ato de zelo e amor. Espero que nossa geração deixe um legado dessa experiência ancorada na superação e solidariedade. Uma solidariedade construída em momentos caóticos e dramáticos, fazendo com que pensemos no coletivo, mesmo isolados. Que as próximas gerações possam ad(mirar) (n)essa atual! Oxalá, nos tornemos cidadãos mais reflexivos e conscientes. Que a flacidez da nossa democracia, nessa guerra não declarada, transmute no mundo de Nárnia, não como metáforas de andarilhos de utopias, mas como um mundo redimensionado em relatividade temporal.

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